Sem ideias para desenhar. Sem ninguém para conversar. Sem cordas de violão decentes para tocar. Sem inspiração para escrever. Nem mesmo vontade de ouvir música eu tinha! Parecia que estava isolada de tudo o que mais amo fazer.
Mas como a vida não para, não podia ficar me lamentando por causa desses... detalhes. Afinal, que tipo de artista precisa estar em contato com arte? Ha, ha! Que ridículo! É como se precisássemos de oxigênio para sobreviver. Nada muito importante. É claro que foi fácil ignorar o fato de estar acorrentada à "normalidade" do dia a dia e não pensar em como eu era inútil sem minha imaginação fértil habitual. Obviamente, também não passei o dia questionando minha aparência física e me achando tão feia quanto a Suzana Vieira sem maquiagem. Muito menos fiquei fazendo penteados malucos no meu cabelo esperando milagrosamente ter alguma ideia de alguma coisa para fazer.
Mas mesmo que eu não tivesse feito nenhuma dessas coisas acima, tenho que admitir que o meu cabelo estava. Uma. Palha. Dava pra visualizar mulas devorando-o e enchendo a pança com ele ou alguém pondo chocolate por cima e transformando-o em uma sobremesa italiana! Ah, eu precisava fazer alguma coisa quanto a isso.
Penteei, prendi, gostei. Mudei de ideia, soltei e penteei de novo. Tentei por para trás, mas não deu certo. Para os lados também não. Pra frente? Pior ainda.
"Mãe, meu cabelo está horrível!"- reclamei ao entrar na sala.
"Procura alguma receita caseira na internet, ué."
Hum, não era má ideia
Foi então que lembrei do creme de hidratação que tinha no armário do banheiro. No entanto, ele tinha um porém: não podia ser aplicado com as mãos, mas com um pincel, um pente ou uma escova.
Hum, também não era uma má ideia.
Lavei a franja. Peguei um pente, passei e penteei. Fui penteando e penteando até que comecei a enrolar o cabelo nele para espalhar melhor o creme.
Fui enrolando, enrolando e... O pente ficou. Mas esse era só mais um detalhe, resolveria aquilo depois. Primeiro tinha que esperar o produto fazer efeito.
Voltei para a sala olhando para minha mãe com o canto do olho. Distraída com a novela. Ok, eu tinha tempo. Sentei em frente ao computador e esperei dar a hora de lavar o cabelo.
Vinte minutos se passaram. Levantei e fui ao chuveiro tirar o creme, o qual saiu sem nenhum problema. Mas agora o pente...
Puxei para um lado, para o outro, mas nada. Nem se mexia. Como consegui fazer aquilo? Chamei minha mãe para me ajudar.
"Você fez a merda. Você desfaz a merda."
Obrigada, mãe. Fico feliz com sua atitude caridosa.
Mas no fim ela veio mesmo me ajudar a desenrolar o cabelo. Não que tenha adiantado muito porque estava muito, mas muito enrolado. E quanto mais ela mexia, mais ela reclamava. E quanto mais ela reclamava, mais meus tímpanos imploravam por misericórdia.
Peguei a tesoura e fui de volta ao banheiro. Tentei esticar a franja o máximo possível e comecei a raspar a lâmina no cabelo. Não queria ter feito isso, mas não podia viver com um pente na cabeça.
No final, fiquei com uma franja. Minha mãe surtou, quase chorou quando viu. Eu, sinceramente? Gostei. Fiquei feliz sem aquela palha caindo no meu olho e escondendo meu rosto. Além disso, consegui dar umas boas risadas da minha ideia idiota e, no final, eu fiquei com uma boa história para contar.
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